1976 - "Tamba-Tajá" - Fatos&Fotos

São três Fafás. A primeira é Fafá em Belém; que recebia a influência da Amazônia e ouvia Jazz. A Fafá sem Belém, segunda etapa, foi quando vim para o Rio, fiz show de rock, música que não gosto de cantar, só ouvir. E a terceira, Fafá de Belém: foi quando eu parei e vi que tudo isto tinha pouco a ver comigo; era mais influência externa que interna. Eu queria buscar o meu ritmo, que é mais ligado a terra, ao chão. Que não é apenas Belém do Pará, mas todas as beléns do país." (Fafá de Belém, Jornal O Globo - Entrevista a Leda Nagle em 20/05/1976)

A musica Êmoriô ainda tocava nas rádios de todo o país, mas Fafá de Belém já estava planejando como seria o seu primeiro disco. Este novo trabalho tinha que falar dela, da sua memória afetiva. Lembrou-se de "Fracasso", defendida por sua tia Irene em uma rádio de Belém e que o avô ao descobrir, a retirou da rádio a força. Lembrou das lendas amazônicas tão bem ilustradas pelo grande e saudoso maestro Waldemar Henrique e nessas lembranças decidiu que queria fazer um disco genuinamente brasileiro e para isso, procurou "sua turma" paraense para dar o tempero que ela queria e assim, com a produção de Roberto Santana e com direção artística de Jairo Pires nasce o "Tamba-Tajá",

"Fafá, com muita calma" - Revista Pop - Janeiro de 1976

Revista Pop, Janeiro de 1976.

O disco era de uma iniciante, mas no estúdio o que se via era uma constelação de estrelas. Wagner Tiso, Fredera e Antônio Perna Froes fizeram os arranjos. O disco ainda contava com a presença de Dominguinhos e seu maravilhoso acordeon nas faixas "Haragana" e "Xamêgo" e de Altamiro Carrilho na faixa "Fracasso". Caetano Veloso também fez uma visita nas gravações. Abaixo, registro fotográfico feito por João Castrioto durante as gravações e que foram, inseridas no encarte do disco:


"Fafá de Belém já acabou de gravar o seu primeiro LP, que deverá se chamar "Tamba-Tajá" (Nome de uma planta amazônica, usada pelo povo da terra de Fafá como amuleto, para dar sorte no amor).  Fafá de Belém dedica seu disco a Milton Nascimento e Roberto Carlos e o lançamento está previsto para ser em Belém do Pará, com um show que depois será apresentado por Fafá no Rio, São Paulo e demais capitais. O show terá direção do competentíssimo homem de teatro; Fernando Peixoto (Ex. Oficina). No disco, também uma inédita de Caetano Veloso: "Cá Já".
"O Globo" - Coluna de Nelson Motta - 06/02/1976.

Em 1976, Milton Nascimento e Fernando Brant compuseram as musicas para o espetáculo do Corpo de Ballet "Maria, Maria". É nessa ocasião que Milton compõe "Sedução" e ao terminar de compor, confidência ao parceiro Brant que: só imagina uma cantora interpretando essa música: Fafá de Belém. Na ocasião, Fafá estava em estúdio, gravando seu primeiro LP, "Tamba-Tajá" e com alegria recebe o convite de Milton Nascimento para que participasse da trilha.

Ao lado de Nana Caymmi e Milton Nascimento, grava "Sedução" e com Milton, Nana e Beto Guedes, grava "Maria Solidária". O espetáculo do Corpo de Balé "Maria, Maria" estreia no dia 1 de abril de 1976 no palco do Grande Teatro do Palácio das Artes em BH e depois o espetáculo foi para o Rio de Janeiro cuja estréia foi em 07/04/76 no Teatro João Caetano. Fafá de Belém participou do espetáculo, junto com Milton Nascimento, Nana Caymmi e Beto Guedes.

Assista ao espetáculo "Maria, Maria" com o "Grupo Corpo" e com vocais de: Beto Guedes, Fafá de Belém, Milton Nascimento e Nana Caymmi: 

Nos dois vídeos abaixo, ouça as versões originais de "Sedução" com Fafá de Belém, Milton Nascimento e Nana Caymmi. E a versão original de "Maria Solidária" com Milton Nascimento, Nana Caymmi, Fafá de Belém e Beto Guedes. Ambas gravadas em 1976: 

"Sedução" (1976)

"Maria Solidária" (1976)

Imprensa:

Foto de fundo: Grupo Corpo

Agenda: No dia 15/02/1976 Fafá foi uma das atrações do "Programa Silvio Santos", na Rede Globo.

Segundo a Colunista Hildegard Angel, em sua nota publicada no Jornal "O Globo" do dia 06/03/1976; Fafá de Belém estaria namorando o ator Zanoni Ferrite.

Em março de 1976 Chegou às lojas o primeiro disco de Fafá de Belém "Tamba-Tajá". É, a menina de Belém que tinha problemas de dicção na infância, estava mostrando ao que veio. "Tamba-Tajá" chega às lojas, um videoclipe de lançamento sai no programa "Fantástico" da Rede Globo e a música "Xamêgo" entra na trilha da novela "Saramandaia". O temido crítico musical José Ramos Tinhorão do Jornal do Brasil, faz uma crítica para lá de favorável; ele disse que: "Fafá de Belém é uma cantora destinada a figurar no primeiro time da atual geração de grandes intérpretes brasileiros".

Fafá de Belém - "Tamba-Tajá" 1976 - Capa

Fafá de Belém - "Tamba-Tajá" 1976 - Contracapa

"Tamba-Tajá" - As músicas do disco:

1-Indauê Tupã (Paulo André - Ruy Barata)
2-Tamba-Tajá (Waldemar Henrique)
3-Siriê (Edil Pacheco - Paulinho Diniz)
4-Vento negro (Fogaça - Kledir Ramil)
5-Xamêgo (Luiz Gonzaga - Miguel Lima)
6-Haragana (Quico Castro Neves)
7-Canção da volta (Antonio Maria - Ismael Neto)
8-Pode entrar (Walter Queiroz)
9-Cá já (Caetano Veloso)
10-Gaudêncio 7 Luas (Luiz Coronel - Marco Vasconcelos)
11-Fazenda (Nelsinho Ângelo)
12-Esse Rio é minha rua (Paulo André e Ruy Barata)
13-Fracasso (Mario Lago)

Ficha Técnica do disco:

Direção de Produção de Repertório: Roberto Santana

Direção Artística: Jairo Pires

Arranjos: Perna Fróes, Fredera, Wagner Tiso e Nelsinho Ângelo.

Músicos:

Violão, Guitarra: Fredera, Tinho Horta, Galdino / Flauta: Jorginho, Nivaldo Orenellas / Baixo: Jamil, Vevé Calazans / Baixo Eletrônico: Fernando Leporace / Baixo Acústico: Noveli / Bateria: Paulinho, Mamão, Jaime / Percursão: Bira, Hermes, Chacal, Chico Azevêdo, Mamão, Geraldo e Bilau / Oboé: Brás / Piano: Perna Fróes, Nelsinho Ângelo, Wagner Tiso  / Viola: Chico Braga / Tímpano: Jorge Batista / Vibrafone: Pinduca / Clarineta: Netinho / Afoxé: Aracy / Violão 7 cordas: Voltaire / Cavaquinho: Valmar / Pandeiro: Moacir Risadinha / Orgão: Perna Fróes / Triangulo: Bira / Cordas: Orquestra Phonogram / Coro: Pelancas do Kojac / Regência: Mário Tavares, Wagner Tiso  / Participações Especiais: Dominguinhos ("Xamêgo" e "Haragana"), Altamiro Carrilho ("Fracasso") / Técnicos de Gravação: Ary Carvalhares e Luigi Hofman / Capa: Aldo Luis Fotos: João Castrioto

Encarte e Texto da contracapa

Compacto Duplo

Imprensa

Ouça o Disco:

"Tamba-Tajá" era mais que um disco, era de fato uma revolução no mercado fonográfico, que sempre ignorou o som de cunho regional por acreditar, de forma equivocada, que esse gênero musical não venderia.

Os grandes nomes da música às vezes incluíam em seus discos uma faixa ou outra com uma música genuinamente brasileira, mas um disco 100% regional para atender o lado comercial da música, ainda não havia sido feito dessa forma. Até então, quem fazia esse trabalho era a saudosa e talentosa Stelinha Egg, que veio a falecer em 1991. Mas o trabalho de Stelinha era uma obra dirigida, voltada para a educação musical nas escolas, não tinha nada de comercial.

Coincidência ou não, Gal Costa, uma cantora de estilo mais voltado para o Pop, lançou em 1976 seu primeiro disco 100% regional, o belíssimo "Gal Canta Caymmi".

Em 1977, a RCA (Hoje Sony Music), lançou a sua "Fafá de Belém", a não menos talentosa Diana Pequeno. E assim, o mercado da música regional foi ganhando força com lançamentos de nomes como: Marlui Miranda, Vital Lima, entre outros. No final dos anos 70 surgem nomes de peso, como: Elba Ramalho, Amelinha e tantos outros que cantam a nossa arte e a cultura genuinamente brasileira.

Mas outras revoluções musicais ainda seriam feitas por Fafá. Ela estava buscando o seu próprio ritmo e nessa busca, quebraria muitos "gessos", muitas muralhas...

Jornal "Folha de São Paulo" - 26/03/1976

Agenda: No dia 02/04/1976 foi ao ar pela Rede Globo o programa "Sexta Super-Show". Fafá de Belém marcou presença, cantando o ainda sucesso "Emoriô".

No dia 03 de maio de 1976 estreou na Rede Globo a novela "Saramandaia", a música "Xamêgo",(Luiz Gonzaga - Miguel Lima), entra na trilha sonora da Novela. Ouça a música:

Após a chegada de "Tamba-Tajá" ao mercado, Fafá parte para sua terra, queria que sua turnê tivesse início no Teatro da Paz, em Belém. Ao chegar no Pará, Fafá parou Belém, um feito, já que naquela época Belém tinha a fama de não valorizar os seus artistas. Mas, se o povo estava encantado, a classe intelectual paraense observava a artista com desconfiança, haja vista que Fafá fez de tudo para estrear seu "Tamba-Tajá" no Teatro da Paz, mas a direção do Teatro, alegando falta de pauta, não abria uma data. E lá foi Fafá estrear o seu show no Teatro Amazonas, em Manaus.

No Rio de Janeiro, o Show, com direção de Fernando Peixoto e com cenário e figurino de Luiz Carlos Ripper estreou no Teatro Casa Grande , situado no bairro de Leblon e depois seguiu em turnê pelo Brasil.

No dia 11 de Maio de 1976, o Show "Tamba-Tajá" estreou no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. O espetáculo foi dirigido por Fernando Peixoto, com cenários e figurinos de Luiz Carlos Ripper. Fafá de Belém era acompanhada por: Zezé (Violão e baixo), Chiquito (viola, violão, baixo, cavaquinho e guitarra elétrica), Bira (percussão), Eneas (Bateria) e Vitor (Flauta e sax).

Imprensa

Em 1976, o Banco do Brasil inaugurava a sua milésima agência e para comemorar, fizeram o projeto de um disco: "O dinheiro na música popular brasileira". O disco foi gravado em três dias, de 9 a 14/07/1976 e foram convidados grandes nomes da nossa música, entre eles: Jorginho do Império, Clementina de Jesus, Marlene, Jackson do Pandeiros entre outros. Foi convidada também, a então iniciante Fafá de Belém. Fafá gravou sua participação no dia 12/07/1976 e a respeito dessa participação, o produtor do projeto, Ricardo Cravo Albin, escreveu o seguinte:

".... Este segundo dia de gravação terminou com Fafá de Belém, que demonstrou um amadurecido sentido profissional e, também, que já é uma das melhores cantoras jovens do Brasil. Fafá trouxe os seus próprios músicos para o estúdio e cantou, muito a seu jeito, a canção que escolhemos para ela: um antigo sucesso de Roberto Carlos dos anos 60, assinado por Renato Barros, chamado "Não há dinheiro que pague", a que conferiu junto com seu arranjador (o saxofonista Meirelles), uma atmosfera freneticamente jovem e colorida, com um marcado sabor de música mais sobre o internacional do que o nacional.

Enquanto Fafá cantava, uma outra cantora a ouvia, aguardando sua vez de entrar no estúdio. Tinha mais cinquenta anos que Fafá; mas a alegria, a jovialidade e a emocionante vitalidade eram bem próximas às da cantora de 19 anos. É claro que se tratava de Clementina de Jesus, no alto de seus deslumbrantes 70 anos. Clementina de Jesus foi a última a registrar sua voz para este disco".

Conjunto Fafá de Belém: 

Fafá de Belém: Vocal /Meireles: Sax-alto e Órgão /Odorico Victor: Flauta /Enéas Costa: Bateria /Vevé Calazans: Baixo /Gilvan: Tumba

O disco foi uma obra dirigida, não saiu para venda nas lojas, era ofertado, como brinde a funcionários e clientes do Banco do Brasil. Porém, no ano de 2013, a música veio como bônus no box " Três Tons de Fafá de Belém", lançado pela Universal Music. Ouça a música:


No dia 13 de agosto de 1976, no programa "Sexta Super", Rede Globo, exibiu um show em homenagem a Luis Gonzaga, "Brasil Especial: Luiz Gonzaga: A Vida e a Obra do "Rei do Baião". Participaram do programa: Ednardo, Marlene, Izaurinha Garcia, Eliana Pittman, Belchior, Maria Alcina, Carmélia Alves, Trio Nagô, Fafá de Belém, Gonzaguinha e o próprio Luiz Gonzaga cantando seus maiores sucessos. O programa foi dirigido por Augusto César Vannucci.


"Fafá de Belém comemorou seus 20 anos com uma alegre vesperal para a garotada no Tetro Leopoldina de Porto Alegre, onde está apresentando seu Show "Tamba-Tajá". Blumenau, Curitiba, e Londrina estão no roteiro, depois volta ao Rio." (Jornal O Globo, coluna de Nelson Motta, 26/08/76).


O programa "Fantástico", Rede Globo de Televisão, exibe o clipe da música "Haragana" (Quico Castro Neves), que foi em um grande sucesso radiofônico de Fafá de Belém, do ano de 1976.

No dia 11 de Setembro de 1976, a Associação Brasileira de Produtores de Música, divulga a lista dos ganhadores do "Troféu Villa-Lobos" referente ao ano de 1975. Fafá de Belém ganhou o prêmio na categoria "Cantora Revelação". 

Programa Silvio Santos, quadro "Qual é a Musica" - 1976
Fafá de Belém conta que: no começo da sua carreira, não sei se foi nesse dia, ela foi se apresentar no programa do Silvio Santos e que, após a sua apresentação, ela teria que sair correndo, pois já estava com um show marcado para aquele dia em uma cidade do interior de São Paulo. Acontece que o Silvio Santos estendeu a sua participação no programa, ela ficou desesperada por conta do horário, mas ficou com vergonha de falar pro Silvio. Ao terminar o quadro, Fafá saiu correndo, o que chamou a atenção do apresentador que quis saber se estava tudo bem. Foi quando o diretor do programa colocou o Silvio a par da situação. Silvio Santos então, como um pedido de desculpas, providenciou um helicóptero para levar a cantora ao seu destino. E assim, Fafá pode ser pontual ao seu compromisso. Gente fina esse Silvio Santos, não é?

Revista Status - Edição do mês de Setembro de 1976. (Material doado ao site pela Fã Deyse Ferreira) (1)

Fafá de Belém cantando "Já te Digo" ao vivo, no programa "Brasil Especial Pixinguinha" exibido na Rede Globo em 05/11/1976. Nesta apresentação, Fafá é acompanhada pelo saudoso Altamiro Carrilho.  Assista:


Fafá de Belém - Pôster da Revista "Modinha" - 1976

Em 13/11/1976 Fafá de Belém participou do "Festival Italiano" ocorrido em Salvador (BA). O Festival foi promovido pela Alitália Fiat do Brasil, Vasp e Othon Hotéis para festejar o primeiro voo Roma-Salvador.
Fonte: O Globo - 13/11/1976

Agenda: No dia 28/11/1976 Fafá de Belém foi uma das atrações do programa "Globo de Ouro", Rede Globo, onde cantou o sucesso "Haragana"

Tudo na vida tem um preço, nada vem de graça. Se por um lado Fafá alcançava o sucesso e o reconhecimento artístico, por outro, ficou cara a cara com um inimigo comum aos que migram: a solidão. Era muito para a cabeça de uma menina de 18 anos, estar famosa e não ter a família, os verdadeiros amigos por perto. Fafá, com sua ingenuidade chegou rindo para todo mundo, não deu outra, foi porrada pra tudo quanto foi lado. A humanidade tem um affaire com a crueldade, especialmente quando encontra pessoas puras de coração e Fafá não só era, como é até hoje. A barra começava a pesar, a solidão começava a incomodar. Estava no Rio, sozinha em pleno anos 70, época de contestação, de mudanças de comportamento. Foi aí que ela percebeu que para entrar em um grupo de amigos era necessário "curtir um barato" juntos. E foi assim, que a menina de Belém teve seus primeiros contatos com as drogas. Alma livre e coração ingênuo pode ser uma combinação explosiva e no caso de Fafá, foi. Mas, dada as circunstâncias foi a única saída encontrada por ela para aguentar o tranco, para suportar essa dor chamada solidão.

No final de 1976, chegava às lojas o novo disco de Roberto Carlos. Notas de fofoca afirmavam que a música "Você em minha vida" (Roberto/Erasmo Carlos), Fora feita especialmente para Fafá de Belém. Não encontrei em minhas pesquisas nenhuma nota em que Fafá de Belém ou Roberto Carlos confirme ou desminta esses boatos.

1976 não poderia ter terminado melhor! "Tamba-Tajá" tanto o show quanto o disco foi sucesso de crítica e publico. "Xamêgo" e "Haragana" foram sucessos populares e ainda abocanhou nada menos que (Segundo a Coluna de Nelson Motta, do dia 02/02/77) dezesseis prêmios! 

Texto Narrativo: Claudinei Sampaio 

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