"Fafá ao Vivo" (1995/96) - Fatos&Fotos

O ano de 1995 começou corrido para Fafá de Belém. Pela primeira vez na carreira iria participar do Festival de Verão carioca. Fafá estava emocionalmente exausta, havia gravado três discos nos últimos 2 anos e desde a gravação de "Meu fado" (outubro de 1992), começara a reavaliar a sua carreira. O fato de ser uma cantora de um determinado gênero, em muito lhe incomodava. Fafá queria o seu ritmo, queria cantar o que lhe ia a alma, sem compromissos com as tendências do mercado. A cantora não queria ser escrava de um sistema que enriquece, por um lado de dinheiro e por outro de infelicidade.

Decidiu então que não entraria em estúdio naquele ano e que esse show seria o seu próximo disco. No reportório, nenhum comprometimento com o seu último trabalho, "Cantiga Pra Ninar Meu Namorado", era notório que a cantora não gostou muito dele. Fafá queria navegar outros mares, porém, teria que enfrentar as marolas causadas por aqueles que a cercavam, afinal, se a cantora novamente adotasse o "De Belém" no nome e se voltasse a gravar MPB, iria empobrecer a conta bancária de muita gente.

Mas, Fafá sabia que algumas coisas estavam fora da ordem, que tinha muita gente a sua volta cuja "validade" estava vencida. A formação de uma violenta pororoca se anunciava...

No dia 12/01/1995, Fafá estreou, no Canecão (RJ), o show "Cantigas do Brasil". A produção do espetáculo ficou por conta de Ana Sabugosa e a direção geral e roteiro, foram administrados pela própria Fafá. O que o grande público ainda não sabia, era que esse show do "Festival de Verão", seria o próximo disco da cantora. Na verdade, o disco foi uma deturpação grosseira do que foi o show.

No repertório, músicas que marcaram os 20 anos de carreira da cantora: os boleros "Foi Assim" e Sob Medida", as brejeiras "Filho da Bahia", "Pauapixuna", "Raça" e "Estrela Radiante" em um ótimo Pout Pourrit. As populares "Meu Disfarce", "Memórias" e "Meu Homem", "Coração do Agreste" e "Nuvem de lágrimas" entre outras.

Mas, o principal mote do espetáculo foi uma homenagem ao Rio de Janeiro. Fafá abre o espetáculo cantando "Samba do avião" e encerra com "Aquele Abraço", entre as duas, canções como: "Romaria", "Aos nossos Filhos", "Valsa de uma cidade" e até a marcha rancho "Estão Voltando as Flores".

Devido ao grande sucesso de público, o espetáculo que ficaria em cartaz até o dia 22/01, foi prorrogado até o dia 29/01. O show foi maravilhoso, mas o disco deixaria a cantora e os seus fãs "P" da vida, como veremos mais adiante.

Imprensa

O dia 29/03/1995 foi um dia triste para o Brasil, especialmente para os paraenses. Nesse dia, faleceu o grande Maestro Valdemar Henrique (Foto), autor de músicas como: "Tamba-Tajá", "Uirapuru", "Tajapanema" entre tantas outras.

Valdemar Henrique, nos seus 90 anos de existência, construiu uma das obras mais expressivas da Música Brasileira - tanto em qualidade quanto em estilo -, já que se situa entre as vertentes da música popular e erudita.

Abaixo, a nossa homenagem ao Mestre, com Fafá de Belém cantando "Tamba-Tajá"

Em abril de 1995, a Som Livre promove o relançamento, em CD, do disco "Aprendizes da Esperança", lançado originalmente no ano de 1985.

Nos dias 17 e 18/04/1995, Fafá de Belém se apresentou no espaço "RioSampa" (RJ). No repertório, antigos sucessos, além de já começar a apresentar algumas músicas que a cantora acreditava estar em seu próximo CD, como "Lenda das Sereias" (Dorival Caymmi), "Samba do Avião" e "Insensatez" (Tom Jobim) entre outras.

Nos dias 27 e 28/04/1995, Fafá de Belém foi a grande atração em Hong Kong (China). O convite para o show foi da rede de hotéis Hyatt. Para o show, o salão do hotel foi transformado em um cenário amazônico, onde a cantora mostrou uma versão reduzida do seu último show, "Cantigas do Brasil". Segundo matéria do jornal "O Globo" do dia 06/05/1995 (Veja quadro abaixo), "Fafá de Belém foi a primeira artista brasileira a se apresentar naquele país e o show teve esgotada a lotação de 800 lugares".

Na segunda quinzena de junho de 1995, chegava às lojas o novo disco de Fafá de Belém: "Fafá ao Vivo". Com esse disco, Fafá encerraria vários ciclos tanto no campo pessoal, quando no artístico/profissional, como veremos mais adiante. 

"Fafá ao Vivo" (1995) - Capa

"Fafá ao Vivo" (1995) - Contracapa

Encarte: Fotos, Musicas e Ficha Técnica

Em seu show "Cantigas do Brasil", onde foi gravado o presente disco, Fafá, além das músicas do seu repertório, incluiu no show as seguintes músicas: "Lenda das Sereias" (Dorival Caymmi), "Samba do Avião" e "Insensatez" (Tom Jobim), "Onde Anda Você" (Vinícius de Moraes), "Valsa de uma Cidade" (Antônio Maria/Ismael Santos), "Estão Voltando as Flores" (Paulo Soledade), "O que é, o que é? " (Gonzaguinha), "Romaria" (Renato Teixeira) e "Aos Nossos Filhos" (Ivan Lins/Victor Martins). Com exceção das duas últimas, todas as demais ficaram de fora do disco! Provavelmente as duas últimas também teriam ficado de fora se não fosse pelo fato da BMG não liberar as músicas "Nuvem de Lágrimas" (Paulo Debétio/Paulinho Resende) e "Coração do Agreste" (Moacyr Luz/Aldir Blanc).

Mas, parece que algo saiu errado ao transformar o show em disco. Tiraram todas as citadas músicas acima para dar lugar as irrelevantes "Só Canções", "P da Vida" e "Longe é Um Lugar que não Existe", e ainda colocaram "Bandoleiro", uma música que havia sido gravada há 07 meses. Pior! Escolheram "P da vida" para puxar o disco! Oras, essas músicas até servem, por questões cênicas, para animar um show, mas não para estar em um disco e muito menos ser a música de trabalho de uma cantora bem-sucedida como Fafá de Belém!

Os acontecimentos futuros, levam a crer que Fafá deve ter deixado aos cuidados de sua então agente Ana Sabugosa, a missão de, junto com a Sony, escolher o repertório do disco. E porque acredito que algo deu errado? Em suas entrevistas para o disco "Pássaro Sonhador" em 1996, Fafá disse que: "Eu já não estava feliz com o rumo das coisas. Quando o disco foi lançado ("Fafá ao Vivo), liguei para a gravadora e disse-lhes: Vou fazer a divulgação do disco, mas depois vou me recolher, vou sair de cena". Além disso, meses depois, sua parceria de 15 anos com Ana Sabugosa, chegara ao fim.  

Imprensa

Ouça o disco

No dia 25/06/1995, Fafá foi umas das atrações do "Domingão do Faustão", Rede Globo. A Cantora foi para divulgar o disco, mas na verdade, caiu na emoção do quadro "Arquivo Confidencial". Não sei se é impressão minha, mas já quase no final da música, quando a cantora diz: "Não tem gatilho nem porra, que vai me por nocauteada..." o olhar de Fafá tinha endereço certo! Assista:

Em meados de julho de 1995, Fafá de Belém foi lançar "Fafá ao Vivo" em Portugal. O disco fez muito sucesso por lá. Abaixo, três momentos da cantora no programa "Bigshowsic", exibido na Tv. Portuguesa: 

Como sempre, Fafá de Belém foi a vários programas fazer a divulgação do seu novo trabalho. Deu entrevista no extinto "Jô Soares Onze e Meia" (SBT) - a entrevista tinha no YouTube - entre tantas outras apresentações. Há vários vídeos na rede com ela cantando "P da vida", mas, com a ajuda de Waleska Alves, que muito me auxilia em encontrar vídeos, escolhemos esses dois, porque além de cantar, Fafá também fala a respeito do trabalho. Assista: 

Após as divulgações obrigatórias do disco "Fafá ao Vivo", Fafá saiu um pouco de cena. Ao voltar de Portugal, fazia shows mais para não deixar sua banda na mão do que por prazer. A relação com Ana Sabugosa já não era a mesma, e esse conflito acabaria com uma parceria de 15 anos. Sobre o rompimento entre a cantora e a empresária, houve muitas especulações ente os fãs, mas oficialmente não se sabe ao certo.

Em entrevistas da cantora, na ocasião do lançamento de "Pássaro Sonhador", quando questionada, Fafá apenas respondia: "Não aguento essa coisa de não podes, não deves. Queriam represar essa pororoca". Baseado nessa repetitiva resposta da cantora, e nos fatos ocorridos desde o lançamento de "Meu Fado", em 1992, é possível se ter uma noção dos fatos.

Os fãs dessa época eram unanime em relação a antipatia que nutriam pela empresaria, que por sua vez, tinha total desprezo pelos fãs. Nessa época não tinha internet e a única maneira de saber sobre agenda ou aparições na TV, era ligando para o escritório. A resposta era sempre a mesma: "Não sabemos informar" e em seguida desligava o telefone em nossa cara. Esse temperamento amargo e autoritário da empresária, inevitavelmente recairia sobre ela própria, com de fato aconteceu.

Desde que gravara o disco "Meu Fado", Fafá começou a reavaliar sua carreira, seu repertório. Percebeu que estava na mesma bolha em que esteve no início de sua carreira: escrava de um sistema, de um conceito. Fafá sempre lutou para não ser uma cantora "de", mas ser uma cantora, sem essa coisa de estilo, de conceito.

No disco e no show "Do Fundo do meu Coração", percebe-se que há uma intenção da cantora em resgatar a sua própria história, em navegar outros mares, sair do mesmo. Ana acreditava mais em uma Fafá popularesca e possivelmente é aí que ela tentava conter a pororoca. Em 1994, Fafá lança o disco "Cantiga pra Ninar meu Namorado" e uma curiosidade: foi a primeira vez, desde o início da carreira, que Fafá não fez um show de lançamento do disco. Tempos depois, Fafá diria que "Cantiga..." era um disco bonito, porém, equivocado. O que dá a entender que o repertório e o conceito do trabalho, foram objeto de intensa persuasão, haja vista que no disco faltou o principal: a cantora. Fafá não se entregou de sua forma arrebatadora como nos discos anteriores.

Em janeiro de 1995, aconteceu o show "Cantigas do Brasil", onde a cantora tenta novamente resgatar a sua carreira, como vimos no texto que consta no quadro do lançamento do disco, mas o produto final ficou muito aquém do que Fafá pretendia. Somando essas informações, mais a maravilha que foi o disco/show "Pássaro Sonhador", não é muito difícil de imaginar que: a pororoca queria sua história e o seu Belém de volta e que alguém ou algo tentava conter isso.

No dia 21/11/1995, Fafá de Belém foi a atração da "Festa de confraternização dos Panificadores". O evento foi promovido pelo Sindipani e foi realizado no espaço "RioSampa". O show foi de Fados, para felicidade dos patrícios.

Com a saída de Ana Sabugosa, nasceu entre os fãs de Fafá de Belém, a possibilidade de se criar um fã clube. Afinal, para que um fã clube exista, é fundamental que se estabeleça uma parceria entre a entidade e a assessoria do artista, o que, com Ana Sabugosa era completamente impossível, já que a mesma tinha verdadeira fobia a fãs. 

O primeiro deles foi o "Fafá Pororoca", fundado pelo fã Emivaldo, na cidade de Belém (PA). Mas um fã clube oficial, "Tua Presença", fundado por Érika Távora, na cidade do Rio de janeiro, só surgiria dois anos depois. 

Em fevereiro de 1996, Fafá seguiu para Portugal. No dia 14 daquele mês se apresentaria no famoso "Casino Estoril" em um espetáculo para lá de especial. Fafá apresentou seu show "Meu Fado" na grandiosa "Gala Diplomática" a favor da UNICEF. Na plateia, grandes autoridades de Portugal, além de representantes de outros países.

Imprensa

Antes de viajar, Fafá ligou para o amigo Michael Sullivan e lhe fez um pedido: queria uma música inédita para o seu próximo disco. Mas não podia ser uma música qualquer, tinha que ser algo que ao tocar nas rádios, houvesse uma imediata identificação com o seu público. E foi assim que ao voltar de Portugal, Fafá recebeu das mãos do amigo a música "Abandonada".

Após apresentar-se no "Cassino Estoril", Fafá aproveitou para descansar um pouco em umas pequenas férias na Europa. Enquanto isso, aqui no Brasil, era lançado "Amigos", o novo disco de Ângela Maria e que contava com a participação da nata da nossa música, entre eles, Fafá de Belém que gravou com Ângela a música "Abandono" (Nazareno de Brito/Presyla de Barros). O projeto lançado pela Sony, teve sua produção iniciada em meados de 1995 e a gravação de Fafá com Ângela foi em outubro.

Após o lançamento, o projeto ganhou um especial no programa "Som Brasil" (Rede Globo). A gravação do especial foi em 16/04/1995 e a exibição em 30/04 daquele ano. Assista, Fafá de Belém e Ângela Maria:

Saiba tudo o que rolou desde a gravação do disco, até o especial do "Som Brasil":


Ao voltar de Portugal, Fafá estava físico e emocionalmente desgastada. O rompimento com o namorado e com a empresária; a insatisfação com os rumos que sua carreira havia tomado, especialmente com os dois últimos trabalhos, fez com que a cantora "acendesse" o alerta. Precisava se desconectar, se reabastecer, e para isso só havia um caminho: voltar no seu percurso. Foi o que fez. Partiu para Belém. Chegando lá, cortou os cabelos, fechando assim um ciclo. 

E assim, chegamos ao final do período "Fafá ao Vivo 1995". Um período difícil de se fazer, afinal, aconteceu mais coisas nos bastidores do que na ribalta. O fato da cantora ser extremamente discreta no seu âmbito pessoal, ao ponto de muito pouco vazar para imprensa, deixou muita coisa ficou na especulação.

Fafá iria viver seu necessário período invernal, para tal qual uma fênix, ressurgir como um belo pássaro sonhador, sem medo de ser feliz, de novamente se reinventar, ou, melhor dizendo, se resgatar como ser humano e como artista.

Texto Narrativo: Claudinei Sampaio

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