"Crença" - 1980/81 - Fatos&Fotos

Em maio de 1980, Fafá de Belém começou a produção do seu disco "Crença". A cantora, como já dissemos, vivia uma faze de questionamentos, de introspecção, e foi com esse sentimento introspectivo que "Crença" foi se formando. Nele, a interprete continuava o seu processo de tornar-se mais urbana, mas sem perder a sua essência regional. A produção de "Crença" foi feita por Armando Pittigliani e a direção musical foi de Luiz Alves. A seleção de repertório foi feita por Fafá de Belém e contou com a colaboração de: Roberto Santana (Que voltava a ser o seu empresário), Roberto Menescal, Raul Mascarenhas e Armando Pittigliani.

Fafá de Belém entra na onda do windsurfe!

"A cantora está fazendo aulas para relaxar as tensões da época da gravidez e do parto e para respirar o ar puro da Lagoa de Marapendi. Ela garante que está quase pronta para praticar sozinha". (Matéria exibida no Fantástico no dia 08/06/1980)

No dia 26 de junho de 1980, começaram as gravações de "Crença". Nesse período Gonzaguinha entrega para Fafá, logo após ele ter lido alguns textos escritos pela cantora, a música "Eu apenas queria que você soubesse", que ele fez especialmente para ela e que Fafá acabou não gravando. Anos mais tarde, ela contaria esse episódio: "Na época do meu disco Crença (1980), escrevi uns textos para Roberto Santana falando de algumas inquietações minhas - sobre a pessoa que existe atrás do personagem da Fafá, uma mulher que sofre e chora, com um coração que pulsa por dentro. O Gonzaguinha leu isso e fez "Eu Apenas Queria que Você Soubesse" (que aquela menina hoje é uma mulher). Mas na época achei essa música muito leve e não quis gravá-la - na verdade eu é quem estava tensa e pesada (risos). Quando a ouvi cantada pela Gal Costa num show fiquei louca. Chorei muito e me arrependi de não tê-la gravado"

Assista ao vídeo de "Eu apenas queria que você soubesse", gravado por Gonzaguinha:

Na madrugada de 9 de julho de 1980, Vinicius de Moraes começou a se sentir mal na banheira da casa onde morava, na Gávea, vindo a falecer pouco depois. No Velório, a classe artística e intelectual compareceu em peso. Fafá de Belém também esteve presente.

No dia 10 de julho de 1980, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, Fafá de Belém estreou "Fafá de Belém apresenta Bubuska". O espetáculo fazia parte da série "Festival de Férias Polygram". Tinha a direção de Roberto Santana e ficou em cartaz de 10 a 20/07. Do show, Fafá levou duas músicas para o seu novo disco: "Baque do Coração" e "Cabresto", ambas compostas por Bubuska.

No dia 21 de julho de 1980, estreou pela Rede bandeirantes a novela: "Um Homem Muito Especial". a Música "Que me venha esse homem" (David Tygel/Bruna Lombardi), gravado por Fafá de Belém em 1979, entra na trilha sonora da novela como tema de abertura. Assista: 


Ao ficar sabendo que Fafá de Belém havia incluído a música "Me disseram" em seu novo disco, a compositora Joyce (foto) ficou muito feliz e declarou: "Finalmente estou sendo compreendida!". Essa declaração de Joyce tem sentido, afinal, em 1967 quando defendeu "Me Disseram" no "Festival da Canção", foi injustamente vaiada pelo público e massacrada pela crítica pois consideraram a música "imoral". (Folha Ilustrada 27/08/1980)

No final de setembro de 1980, começa a chegar às lojas o novo disco de Fafá de Belém: "Crença" 

Fafá de Belém - "Crença"(1980) - Capa

Fafá de Belém - "Crença"(1980) - Contracapa

Fafá de Belém - Disco "Crença" - 1980 - Músicas:

1. Sexto Sentido (Beto Fogaça / Hermes Aquino)2. Bicho Homem (Milton Nascimento / Fernando Brant)3. Baque do Coração (Vevé Calazans / Bubuska)4. Na Hora Exata (Tunai / Sergio Natureza)5. Ítaca (Memórias do Exílio) (Paulo André / Ruy Barata)6. Crença (Milton Nascimento / Márcio Borges)7. Carrinho de Linha (Walter Queiroz)8. Precisava Ver (Vital Lima)9. Me Disseram (Joyce)10. Cabresto (Bubuska)11. Para Um Amor no Recife (Paulinho da Viola)12. O Dono do Lugar (Edu Lobo / Cacaso)

Ficha Técnica:

Direção da Produção: Armando Pittigliani / Direção Musical: Luiz Alves / Técnicos de Gravação: Luigi Hoffer, Ary Carvalhaes, Jairo Gualberto, L.C. Coutinho / Assistentes Técnicos: Miguel, Julinho, Ruy Paulo / Técnico de Mixagem: Luigi Hoffer / Seleção de Repertótio: Fafá de Belém, Roberto Santana, Roberto Menescal, Raul Mascarenhas e Armando Pittigliani / Capa: Aldo Luiz / Fotos: Januário Garcia / Arte: Jorge Viana.

Músicos:

Acordeom Piano Acústico e Elétrico: Cristóvão Bastos / Guitarra, Vioção e Viola de 12 cordas: Chiquito Braga / Baixo Acústico e Elétrico: Luiz Alves / Percussão: Bira / Bateria: Rubinho / Flauta, Sax Tenor e Soprano: Raul Mascarenhas

Na faixa "Carrinho de Linha" o baixo é de Ricardo Canto. Participaram ainda, como ritmistas: Fernando, Robertinho e Augusto. Nas faixas "Cabresto", "Carrinho de Linha", "Na Hora Exata", "Baque do Coração" e "Sexto Sentido".

Nivaldo Ornellas e Meirelles fizeram flautas em: "Me Disseram", "Ítaca"(Memórias do Exílio), "Cabresto", "Carrinho de Linha", "Precisava Ver" e "Na Hora Exata".

Wagner Tiso, gentilmente cedido por EMI/ODÉON, fez o piano acústico em "Crença" e "Bicho Homem" e piano elétrico em "Na Hora Exata".

O Bandoneom de "Sexto Sentido" é de Ubirajara.

Na faixa "Na Hora Exata" o violão é de Tunai.

Fizeram o coro de "Bicho Homem": Emílio Santiago, Vital Lima, Wagner Tiso, Bira, Cristovão Bastos, Raul Mascarenhas, L.C. Coutinho e Luiz Alves.

Imprensa:

"Crença" é um ponto de desacordo entre os fãs (que adoram) e a cantora (que já declarou que o detesta). A questão é que os fãs e a cantora veem esse trabalho sob ângulos bem diferentes. "Crença" é sem sombra de dúvidas o melhor trabalho de Fafá de Belém depois do antológico e emblemático "Água". É um disco diferente, poético, introspectivo... é para quem gosta de música e poesia, para quem se busca... é assim que nós fãs o vemos.

Para a cantora é o documento de um momento difícil e amargo da sua vida, a entrada para a vida adulta, para as responsabilidades da qual ainda não estava preparada. "Crença" é a negação de Fafá para consigo mesma. Na verdade, ela já não queria mais carregar o Belém no nome e com isso a obrigação de seguir somente a um segmento musical. Era o medo e a culpa por ser mulher! Desde os exageros de "Banho de Cheiro" que a cantora se fechou dentro de si mesma, "já não me importa nenhuma crença". Praticamente todas as faixas do disco eram uma profunda reflexão do que ela era, ou do que tinha se tornado: "Daquele moço canteiro, repentista e violeiro, hoje só resta o porão. Pois a casa e a cumeeira, destino fez bagaceira e o vento jogou no chão".

Fafá queria outros ares. Queria exibir, sem culpas, a sua exuberância, sua sensualidade, sua liberdade. Nas entrevistas afirmava que estava bem, serena, em paz... nada. Estava cheia de questionamentos, medos, culpas...

No dia 28/09/1980 o "Fantástico", Rede Globo de Televisão, exibiu Fafá de Belém com o clipe "Bicho Homem", oficializando assim a lançamento do disco "Crença".

Assista ao vídeo:  

No dia 22 de Outubro de 1980, com direção de Fernando Peixoto, Fafá de Belém estreou, no Teatro da Galeria (RJ) a show "Crença". 

"Crença" ficou em cartaz de 22 outubro de 1980 a 13 de fevereiro de 1981. Casa lotada durante toda a temporada, tudo parecia ir muito bem. Em maio de 1981, "Crença" seguiu para São Paulo, onde ficaria em cartaz por 15 dias e acabou ficando até agosto. Foi quando o ar comprimido explodiu e Fafá tomou coragem para conduzir a própria vida e carreira, como veremos mais adiante.

Imprensa:



No dia 10 de Novembro de 1980 no horário das 18 horas, estreou pela rede Globo de Televisão, a novela "As Três Marias". A musica "Sexto Sentido" gravada por Fafá de Belém, entra na trilha do folhetim. 

No dia 25 de Janeiro de 1981, foi exibido no programa "Fantástico", Rede Globo de Televisão, o clipe da música "Sexto Sentido" (Beto Fogaça/Hermes Aquino). Assista: 

De 16/01 a 07/02/1981, aconteceu na cidade do Guarujá (SP) o "Festival de Verão do Guarujá". O evento reuniu os grandes nomes da nossa música, entre eles, Fafá de Belém, que se apresentou no encerramento do festival. Veja abaixo as principais notícias do evento.

Durante 12 semanas, o "Horse's Neck" (Rio Palace - RJ), promoveu o "Festival de Verão da MPB", onde reuniu a nata da MPB com um show diferente a cada final de semana. De 19 a 22/02/1981, foi a vez de Fafá de Belém e o seu show "Crença" abrilhantar o evento.

No dia 05/03/1981, Mariana Belém completava 1 ano de vida. Fafá, a mamãe coruja, comemorou em grande estilo o aniversário da filhota.

No dia 16 de março de 1981, estreou no horário das 20 horas, pela Rede Globo, a novela "Baila Comigo". Fafá de Belém gravou, exclusivamente para a trilha do folhetim, a música: "Pano de Fundo" (Ivan Lins / Victor Martins). Ouça a música:  

Revista "Doçura" nº 22 - Abril de 1981

Reportagem de: Alvaro Freitas

Fotos de: Amilton Vieira

"Fafá de Belém e Raul - Sem Hora Marcada"

Fafá de Belém no "Projeto Pixinguinha 1981"

"O Globo" - 10/05/1981

No dia 13 de maio de 1981, Fafá de Belém estreou o show "Crença" na casa Beco, em São Paulo. O show ficaria em cartaz até dia 06 de junho, mas devido ao grande sucesso, se estendeu até 07 de agosto daquele ano. 

Nesse período Fafá ficou morando em São Paulo. Enquanto o Show "Crença" era um sucesso de crítica e de público, a vida pessoal da cantora desabava. Foi surpreendida com uma gravidez inesperada. Não poderia ter um outro filho agora, tudo estava muito incerto: a carreira e o casamento não estavam bem. Foi uma decisão difícil, sofrida, mas naquelas circunstâncias, o aborto foi necessário.

Fafá percebeu então, que outros "abortos" eram necessários, e em junho de 1981, se separou de Raul Mascarenhas. Foi nessa época também que contratou, como sua secretária, uma moça ainda inexperiente, mas muito ambiciosa: Ana Sabugosa.

Em 1981 o humorístico "Os Trapalhões" completou 15 anos na Rede Globo. Para comemorar, foi ao ar no dia 28 de junho de 1981 o programa "Os Trapalhões - Especial 15 anos". O especial teve 8 horas de duração e contou com a participação do elenco da Rede Globo e de vários astros da música. Fafá de Belém estava lá e participou de uma remontagem do programa "Esta noite se Improvisa" (Que foi apresentado pela TV. Record entre junho de 1967 e junho de 1968 pelo apresentador Blota Jr. O próprio Blota Jr. participou do quadro). 

Assista a um trecho da participação de Fafá que foi exibido pelo "Vídeo Show":

Revista Status Plus Nº 84A - Julho de 1981

"Cantada" por Tom Jobim - Fotos: Luís Tripoli - Moderador: Daniel Más

Nota: A foto da página 53, só será publicada por este site mediante autorização da cantora.

No dia 24/07/1981, foi ao ar. pela Rede Globo de Televisão, o programa "Sexta Super - Show do Mês". A apresentação do programa foi feita por: Miéle, Sandra Bréa, Zezé Motta e Edwin Luisi. Fafá de Belém marcou presença no especial cantando "Bicho Homem" (Milton Nascimento/Fernando Brant) Nota: Segundo matéria do jornal "O Globo", publicada em 19/07/1981 (vide quadro acima), Fafá cantaria a música "Sexto Sentido". Assista:

No dia 07 de agosto de 1981, Fafá encerrou a temporada do show "Crença" que estava em cartaz no "Beco" em São Paulo. Estava infeliz, amargurada. Decidiu que aquela turnê terminaria ali. Decidida voltou para o Rio de Janeiro e foi pessoalmente comunicar sua decisão a sua gravadora, a Polygram. Pediu um particular com o diretor da gravadora na época, Roberto Menescal, no que fora atendida de pronto. Explicou a Menescal que resolvera interromper a turnê de "Crença", que não estava feliz com o rumo que sua carreira tomava, não se sentia como uma cantora, mais sim como uma imagem folclórica.

É claro que Roberto Menescal, dentro do seu lado empresário da música, não gostou do que ouviu, afinal, Fafá já havia interrompido a turnê do "Banho de Cheiro", por conta da gravidez não houve uma turnê do "Estrela Radiante", sem shows, o disco vendia menos e ele, naturalmente, queria vendas! Enquanto que "Crença", o Show, embora fosse um sucesso no eixo Rio - São Paulo, o disco não obtivera o mesmo resultado, era um fracasso em vendas. Menescal acreditava que, uma turnê pelo Norte-Nordeste do país, alavancasse as vendas, essa era a visão da gravadora.

Diante da insistência da cantora em não continuar nesse trabalho, Menescal em um momento de irritação disse-lhe: "Você está pronta para voltar para Belém. Fafá de Belém acabou!!!". Fafá que já estava extremamente fragilizada com os últimos acontecimentos: separação, aborto e agora a interrupção da turnê, saiu da gravadora se sentindo nocauteada. Sentia medo diante das mudanças que estavam por vir, mas sabia que tais mudanças era a única saída para que a "previsão" de Menescal não se tornasse uma amarga realidade. Naquele momento não sabia que rumo dar em sua vida...

Um desespero inundou sua alma. Voltou para casa com aquela frase badalando em sua cabeça como uma espécie de mantra: "Fafá de Belém acabou!!!". "Talvez, voltar para Belém, seja realmente minha única realidade" - pensou. E assim foi. Pegou a filha e partiu para seu aconchego. Na viagem, pensava em desistir de tudo, que havia escolhido a profissão errada e que o melhor a fazer era ir morar em um sítio nas proximidades de Belém e nunca mais aparecer.

Mulher e criança, de Portinari - 1938
Mulher e criança, de Portinari - 1938

Ao chegar em casa, desabou no colo dos pais, que a acolheu com os braços e corações abertos. Tinha no pai um grande apoio emocional e na mãe o chão, a direção, a praticidade. D. Eneida não era fria ou seca, era objetiva e precisa ser! Em uma família de temperamento artístico e tão passional, alguém na casa tinha que ter os pés no chão. Ao receber amor, carinho, compreensão e conselhos da família, resolve voltar para o Rio e retomar as rédeas de sua vida e da sua carreira. Sentia-se pronta para enfrentar todas as possíveis diversidades que, com certeza, teria que enfrentar. Voltou sozinha, Mariana ficaria mais uns dias com os avós. Fafá, que vivera o seu outono espiritual desde a concepção de "Crença", entraria em seu inverno particular.

No voo de volta, em uma das escalas, encontrou o amigo Péricles Cavalcante e papearam bastante na sala VIP da aeronave. Fafá falava-lhe das mudanças que queria fazer em sua carreira, que queria de volta a sua alegria. No meio do papo, sai do banheiro um cara com uma enorme bota de couro de jacaré, Fafá olha para o amigo e apontando com os olhos diz: "Lá vai o exterminador do Pantanal!". E foi essa conversa que o inspirou a compor a música "O Gosto da Vida", que dias depois ele enviou a amiga, que adorou!

Mas, nada na vida da cantora foi fácil, e não era agora que seria. Dias depois de voltar para o Rio contraiu uma bactéria rara e de nome estranho "Hiersina-enterocolítica", mais uma vez se sentiu nocauteada. Em uma entrevista à revista Playboy, em 1985, Fafá conta como foi isso:

"Eu estive muito doente naquele período. Por causa de alguma coisa que eu comi, uma salsicha, acho, uma bactéria me atacou violentamente. Foi inesperado, fulminante, horrível.... Meu joelho ficou mais inchado do que minha coxa. Meu pescoço parecia amarrado com ganchos de ferro. A bactéria atacou todas as minhas juntas. As dores eram tão grandes que eu tomava cinco injeções diárias de analgésico e ainda assim elas não passavam. Eu dava berros horrorosos. Tratava-se de uma doença rara e, a princípio, os médicos me deram seis meses para que eu voltasse a andar. Não aceitei o prazo. Estava mal da cabeça, sem disco nas lojas, sem show, sem espaço na imprensa e aquela voz que não saia da minha cabeça: "Fafá de Belém acabou". Em três semanas eu estava me movimentando. Sai da cama para dar a volta por cima em minha carreira". (Revista Playboy - Abril de 1985)

Em um dia qualquer do mês de setembro de 1981 Fafá de Belém foi a São Paulo. Ainda estava se recuperando. Foi almoçar, com o Raul Mascarenhas no restaurante "Rodeio", onde encontrou Elis Regina, provavelmente a última vez que a viu com vida. Fafá conta, também à Revista Playboy, em abril de 1985, como foi esse encontro:

"Ao chegar no restaurante, sentei-me na penúltima sala. A Elis estava lá, com o produtor Nilton Travesso e outras pessoas. Ela me viu e chamou: "Maria de Fátima, quero falar com você". Levantei, de cabeça baixa - eu andava arrasada - e me dirigi à sua mesa. Não cheguei a sentar. Elis tomava um Cointreau, colocou o cálice de lado e me disse o seguinte: "Escute, bicha; não cale a boca nunca! Você agora é o Cristo de todo mundo, porque decidiram, eles decidiram assim. Vão te esculhambar, vão querer te botar pra baixo, vão te fazer horrores. Eu passei por isso. E por que nós? Porque nós duas chegamos com um grande sorriso e isso incomoda esse pessoal. Hoje em dia, eu sou filha da puta, sou escrota, sou sacana, sou egoísta, mas na hora em que eu abro a boca - Blá! - Eles não têm o que responder". Eu em silêncio, perplexa, sem forças para sentar ou voltar para a minha mesa. E ela então encerrou: "Então, esquece quem te paparicou ontem e te vira as costas. Só tem mais uma coisa, não deixe que amarguem tua gargalhada como quiseram amargar a minha. Pronto, pode voltar para sua mesa". Voltei para o hotel onde eu morava quando ficava em São Paulo e chorei longamente feito uma louca. Ela havia me dito tudo o que eu precisava ouvir, sem que eu houvesse contado nada para ela. Aquela conversa me ajudou decisivamente a enfrentar meus problemas, a resolver minhas culpas". (Revista Playboy - Abril de 1985)

Durante a longa noite, Fafá foi se livrando da culpa de não mais querer ser regional, de não mais querer cantar apenas a sua infância. Se livrando da culpa em querer ser popular, de expor, sem grilos, a sua sensualidade. Elis a fez enxergar que ela não tinha que enfrentar os que iriam criticá-la, ela tinha que cantar, só o seu canto calaria a boca da maldade alheia. Começou então a pensar qual seria a proposta a fazer, como seria esse disco. Já tinha em mãos duas músicas feitas exclusivamente para ela: "O Gosto da Vida", do amigo Péricles Cavalcante e "Essencial" composta pela também amiga Joyce. Mas, o disco não aparecia, não se desenhava e isso a deixava aflita. Foi quando a luz apareceu nas ondas do rádio. Naquela manhã, ao se levantar, ligou o rádio e, enquanto se preparava para o banho, começou a tocar "Bilhete" na voz de Ivan Lins, ao ouvir a música o coração da cantora explodiu de alegria: seu próximo trabalha acabara de se desenhar por completo, como uma espécie de revelação. Ligou para a gravadora para dizer que seu próximo disco já estava pronto, que poderiam começar os trabalhos.

E com o coração, cheio de esperança, Fafá voltou para o Rio para iniciar a produção de "Essencial".

O que somos aqui na terra? Nada além de sobreviventes. Todos os dias, agradecemos por ter sobrevivido a mais um dia. Por ter sobrevivido a vida, ao trabalho. Por sobrevivemos apesar das injurias, das mentiras, dos tombos, dos prantos...

E Fafá de Belém sobreviveu, Fafá de Belém, a despeito de alguns, não acabou. Em 1981, ela apenas fechou um ciclo. Com 18 anos chegou de Belém rindo para todo mundo e daí foi porrada pra tudo quanto foi lado, mas ela sobreviveu. Sobreviveu a solidão, as perdas, a incompreensão, a vaidade, ao fracasso. Como eu disse lá no início, Fafá de Belém é uma mulher de alma livre e de coração ingênuo e tais características não mudam, quem tem sabe como é. É verdade que se sofre mais, mas em compensação, vive-se mais, com toda a intensidade que a vida merece. Fafá de Belém fechou 1981 pronta para novos amores, novos abismos, novos risos, novas alegrias e desilusões. Fechou 1981 pronta para recomeçar e cumprir a missão a que veio: quebrar conceitos e preconceitos que engessavam, e que infelizmente ainda engessam a música. Veio ocupar o lugar para o qual ela fora predestinada: Tornar-se um dos maiores nomes da música popular brasileira. Mas para isso, precisava encontrar o "seu próprio ritmo..."

Fafá aqui, concluiria o que chamamos de sua "Primeira Faze". Foram cinco ótimos discos gravados, dois deles excepcionais: "Água" (1977) e "Crença" (1980).

Texto narrativo: Claudinei Sampaio 

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