"Do Fundo do meu Coração" (1993/94) - Fatos&Fotos

Após gravar "Meu Fado", Fafá começou a se questionar a respeito de sua carreira, tais questionamentos atingiriam seu ápice em 1995, quando a cantora fez uma série de rompimentos, tal qual já havia feito no início dos anos 80.

Essa coisa de ter que se enveredar por um determinado ritmo em muito a incomodava. No início dos anos 80 brigou com o mundo para poder ter a liberdade de cantar o que queria e não seguir um padrão determinado por gravadoras, mercados e opiniões. No entanto, Fafá percebia que brigou muito, pagou caro para chegar ao mesmo lugar: o lugar do conceito.

Ao voltar de Portugal, no início de março de 1993, decidiu que só gravaria um novo disco no final do ano, que se dedicaria ao disco "Meu Fado", mas não foi o que aconteceu.

A Sony tentou comprar os direitos do último disco que a cantora devia a BMG. Mas, a BMG não cedeu, queria que Fafá cumprisse o contrato. Nesse caso, a Sony então pressionou a cantora para que gravasse o mais rápido possível, para que não demorasse tanto para lançar o disco de estreia pela Sony. Resultado: a produção de "No Fundo do Meu Coração", que Fafá planejava para outubro de 1993, teve início em abril daquele ano.

Com os lançamentos de "Meu Fado", com Fafá de Belém e "Sobre Todas as Coisas", com Zizi Possi, houve uma espécie de virada no mercado fonográfico. Não que a música popular estivesse perdendo espaço, o popularesco é que não cabia mais. Fafá não queria deixar o popular, mas queria um disco com arranjos mais elaborados e letras mais consistentes, sem o excesso de pieguices praticados pelo "brega".

E foi com esses questionamentos, que "Do Fundo do Meu Coração" foi concebido. Porém, a cantora só voltaria a se encontrar com o grande público em 1996, quando lançou "Pássaro Sonhador". 

No início de junho de 1993, Fafá se dividia entre a gravação de seu novo disco e a divulgação de "Meu Fado".

De 03 a 06/06/1993, Fafá de Belém apresentou no "Canecão" (RJ), o show "Meu Fado". Acompanhada pelo guitarrista português Antônio Chainho, pelo violonista Silvino da Costa Pinheiro e pelo baixista Carlos Silva Souza (Caçula). Realizou um belíssimo show, que foi sucesso de público e de crítica.



Imprensa:


Ao gravar um disco de fados, Fafá de Belém trouxe uma grande e importante contribuição na questão política e cultural entre Brasil e Portugal, como podemos ver nas matérias abaixo.

Em meados de julho de 1993, chegava às rádios o single de "Tudo Acabou" (Carlos Paião). Assista: 

Na segunda quinzena de julho de 1993, o Presidente de Portugal, Mário Soares, veio ao Brasil para prestigiar o lançamento da "Fundação Luso-Brasileira". No dia 19/07 aconteceu no "Canecão", um show com o fadista Carlos do Carmo, que contou com as participações de: Fafá de Belém, Wagner Tiso, Tom Jobim, Eugenia Melo e Castro, Edgard Duvivier e Maria Alcina.

No dia 20/07 no "Real Gabinete Português de leitura", no centro da capital carioca; ocorreu um recital com o pianista Arthur Moreira Lima com participação especial de Fafá. Aliás, a presença de Fafá em todos os eventos da agenda, foi uma exigência do Presidente Mário Soares.

No início do mês de agosto de 1993, chegava às lojas "Do Fundo do Meu Coração", o mais novo trabalho de Fafá de Belém. As músicas "Tudo Acabou" (Carlos Paião) e "Vem me Buscar" (César Augusto) foram as mais executadas nas rádios populares. Já "Vingança Boba" (Cazuza/Sérgio Serra) foi bastante executada na extinta "Musical FM", uma rádio paulistana que só tocava MPB. Mas, "Estrelitas e Duendes" (Estrellitas Y Duendes - Juan Luis Guerra - Versão: Fafá de Belém) que poderia ter alavancado as vendas do disco, infelizmente não foi trabalhada.


"Do Fundo do Meu Coração" - Capa

"Do Fundo do Meu Coração" - Contracapa

Encarte: Fotos, Músicas e Ficha Técnica

Release do disco:

Imprensa

No dia 07/09/1993, Fafá de Belém marcou presença no programa da saudosa Hebe Camargo (SBT). Fafá cantou "Tudo Acabou". Após cantar, bateu um papo sobre seu novo disco e também sobre política. Hebe então pediu que Fafá cantasse o "Hino Nacional Brasileiro". Fafá demonstrou indecisão por alguns segundos, afinal, estava proibida de cantá-lo. Mas resolveu atender o pedido da amiga e cantou à capela, lindamente... Assista:

No dia 10/09/1993, Fafá de Belém estreou, no "Imperator" (RJ), o seu novo show: "Do Fundo do Meu Coração". No espetáculo, a cantora faz uma bela e emocionante retrospectiva de sua carreira. Internamente, Fafá queria mudanças em seu trabalho e resgatar a sua carreira em um todo, era um bom começo. Afinal, desde que abraçara o popular, havia deixado de cantar as músicas do início da carreira, especialmente as de cunho mais regional.

"Do Fundo do Meu Coração" - Roteiro:

"Peguei um Ita no Norte" / Pot-pourri: "Filho da Bahia", "Raça", Pauapixuna", Bicho Homem", "Estrela Radiante" e "O Gosto da Vida". / "Lábios que Beijei"/ "Bilhete"/ "Aprendizes da Esperança"/ "O Quereres"/ "Do Fundo do Meu Coração"/ "Nuvem de Lágrimas"/ "Sedução"/ "Aos Nossos Filhos"/ "Foi Assim"/ "Sob Medida"/ "Desordem"/ Fados: "Nem as Paredes Confesso" e "Olhos Castanhos"/ "Tô Carente"/ "A Bilirrubina"/ "Meu Disfarce"/"Coração Xonado"/ "Coração do Agreste"/ "Sobre Todas as Coisas" e "Menestrel das Alagoas".

O show ficou em cartaz até o dia 19/09, mas, devido ao grande sucesso de público e crítica, fez uma apresentação extra no dia 26/09/1993.

Imprensa:

Em setembro de 1993 a Polygram lançou a "Série Colecionador". Tratava-se do relançamento de toda a coleção dos principais discos dos vários artistas que passaram pela gravadora. No aspecto gráfico, a coleção deixou muito a desejar, as fotos de encarte e contracapa dos discos originais não estavam inclusas. Mesmo assim, foi um sucesso! A primeira tiragem esgotou em poucos dias. 


No dia 01/10/1993, o show "Do Fundo do Meu Coração" estreou no Canecão (RJ). O espetáculo ficaria em cartaz até o dia 03/10, mas, devido ao grande sucesso de público, o show foi prorrogado até o dia 10/10.

O roteiro era o mesmo que foi apresentado no Imperator, mas esse teria uma novidade: Fafá, desafiaria a lei cantando o "Hino Nacional Brasileiro". Cantou e foi ovacionada! 


Imprensa

Em outubro de 1993, chegou às lojas o "SongBook" de Vinícius de Moraes. Uma obra em 3 Cds e um livro e a participação dos grandes nomes da nossa música. Fafá de Belém, claro, não poderia faltar e, acompanhada pelo violonista Hélio Delmiro, nos agraciou com uma intensa  e bela interpretação de "Serenata do Adeus", interpretação que foi elogiada pelo crítico Mauro Ferreira (O Globo). A série "Songbook" foi idealizada por Almir Chediak e lançada pela "Lumiar Discos". 

Ouça:

Em novembro de 1993, Fafá foi para Portugal. Além da divulgação de "No Fundo do meu Coração", a cantora também foi cuidar da abertura de seu escritório naquele país e também participar de um show da festa de São Martino. Aliás, nesse show foram convidados somente os fadistas tradicionais portugueses, Fafá foi a única cantora estrangeira a participar.

Em meados de novembro de 1993, a música "Vem me Buscar" (César Augusto), começou a tocar nas rádios de todo o país. Ouça:


Em dezembro de 1993, chegava às lojas o "Songbook de Dorival Caymmi". Fafá de Belém participou com a gravação definitiva de "Peguei um Ita no Norte", que está no volume 04.

Curiosidade: Segundo matéria do jornalista Mauro Ferreira, publicada pelo jornal "O Globo" em 27/04/1993, quem iria gravar essa música seria a cantora Elba Ramalho em parceria com Oswaldinho do Acordeon (Veja matéria abaixo). Acontece que, quando a Fafá começou a planejar o show "Do Fundo do Meu Coração", show este que comemorava seus 18 anos de carreira, a cantora decidiu que faria um show retrospectivo, incluindo aí alguns dos seus primeiros sucessos. Resolveu então que a música "Peguei um Ita no Norte", em uma forma figurada, narraria a sua saída de Belém rumo ao Rio de Janeiro.

O arranjo da música foi concebido pela própria Fafá, que tempos depois, em uma entrevista, disse que: " Sempre que eu ouvia a música "Peguei um Ita no Norte" eu me lembrava da música "O trenzinho do Caipira" (Villa Lobos), pois acho que a harmonia de ambas são muito semelhantes. Por essa razão que resolvi usar a música de Villa Lobos, como música incidental".

Nota: No encarte do "Songbook", há uma grande falha. Claramente se ouve um Sax Soprano, porém, em um lapso horrível, o mesmo não foi citado na ficha técnica. Nos créditos, o violão é atribuído a Zé Carlos. Se o Zé Carlos em questão, é o mesmo que já trabalhava com a Fafá, então o sax é dele. Se assim for, quem é o violinista que dá um show à parte? 

Ouça:

Em 1986 (Veja nota ao lado), Fafá de Belém recebeu uma proposta para posar nua na revista Playboy. Embora o cachê fosse muito tentador, Fafá, que estava fazendo o maior sucesso com o disco "Atrevida", recusou a proposta.

Foi nessa época que surgiu uma aspirante a celebridade: Lilian Ramos. Diziam que ela era a "sósia perfeita" de Fafá. Lilian até que lembrava Fafá, mas sósia perfeita era golpe midiático. Quando Fafá recusou posar nua, a Playboy então convidou Lilian Ramos, que claro, aceitou. A edição com a aspirante a celebridade chegou às bancas em novembro de 1986. Fafá até cogitou a processar a revista, pois a mesma 

usava o nome da cantora para chamar a atenção para Lilian. Porém, Fafá desistiu de processar a revista, pois entendeu que a publicidade em torno da moça só veio provar que seu prestígio e popularidade estavam em alta. 

Enquanto Fafá crescia como artista, a celebridade Lilian Ramos voltava ao anonimato.

No carnaval de 1994, Lilian Ramos volta à cena e protagonizou um escândalo que envolveu o então Presidente da República, Itamar Franco. No camarote do Presidente, Lilian foi fotografada ao lado de Itamar Franco, vestindo apenas uma camiseta, uma meia-calça e sem calcinha. Foi um grande escândalo, a oposição chegou a falar em impeachment.

No meio disso tudo, uma questão começou, com razão, a irritar a Fafá: todas as matérias que falavam do escândalo continham a mesma frase: "Lilian Ramos, sósia da cantora Fafá de Belém..." Fafá, muito P... da vida, resolveu esclarecer o principal ponto que as colocavam entre extremos (Veja nota acima). Lilian chegou a declarar que processaria Fafá, mas em um momento raro de bom senso, desistiu da ideia.





E assim, chegamos ao final do período "Do Fundo do meu Coração". Infelizmente, o disco, embora fosse muito bom em todos os aspectos, não alcançou o número de vendas dos discos anteriores.

Esse fracasso nas vendas se deu por conta de uma "vingança boba" por parte da BMG, que não abriu mão deste último trabalho da cantora, mas que depois de pronto, não fez uma boa divulgação. O disco tocou nas rádios por ser tratar de Fafá de Belém, e não por um marketing competente da gravadora.




Não tocou, mas é boa! "Estrelitas e Duendes" (Juan Luís Guerra - Versão: Fafá de Belém)


Quanto a Fafá, os questionamentos sobre o rumo de sua carreira, continuavam ativos e provavelmente foi a partir da produção de "Cantiga pra Ninar meu Namorado" que a cantora e a sua agente, Ana Sabugosa, começaram a se desentender, pois a perspectiva das duas estavam se distanciando.


Foto de Fundo: Frederico Mendes

Texto Narrativo: Claudinei Sampaio

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