"Grandes Amores" - Fatos&Fotos

Em maio de 1987 iniciou-se a produção de "Grandes Amores", que contaria com a produção de Max Pierre. Fafá, que sempre sentiu que tinha uma imagem popular, encontrou no sucesso "Memórias" a ponte para finalmente adentrar a uma camada popular, que assistia a seus shows, mas que não comprava seus discos.

A música "Grandes Amores", composição de Fafá, em princípio não estava planejada para entrar no disco. Fafá havia composto "Grandes Amores" dentro de um avião em uma das suas viagens a Portugal. Foi assoviando a melodia e escrevendo a letra em uma página de agenda. Durante o processo de seleção de repertório, Ana Sabugosa achou o papel com a letra da música e foi conversar com a cantora. Fafá "ficou morta de vergonha quando Ana achou a letra e a convenceu gravar. " (Foi ao que disse, segundo matéria do Jornal "O Estado de São Paulo" em 09/09/1987).

O fato da cantora estar fazendo uma opção pelo popular, trouxe-lhe muitas decepções. Pessoas que diziam que ela era ótima, agora a chamava de cafona, de brega, no sentido mais podre do termo. Algumas pessoas próximas se afastaram, o que muito a entristeceu. Em contrapartida o público a elegia como uma das maiores cantoras do país, era o que importava. Críticas e incompreensões iriam sempre existir, seja qual fosse o caminho escolhido.

Artistas que transgridem sempre pagam um preço muito alto, em compensação, se perpetuam, pois, o ato de coragem fatalmente será reconhecido com o tempo. A história nos mostra isso. Georges Bizet quando compôs a ópera "Carmen" recebeu severas críticas, os produtores de ópera da época relutaram em montar o espetáculo e, no entanto, a ópera "Carmen" hoje é uma das mais aplaudidas mundo à fora. Quando Dalida, maior nome da música francesa, gravou em 1978 "Ça me fait rever", um pot-pourri de seus maiores sucessos em ritmo de discoteca, o disco foi muito bem aceito pelo público, mas Dalida foi literalmente satanizada pela imprensa francesa. As críticas foram tão pesadas, que Dalida entrou em um processo de depressão, que aliado a traumas pessoais, resultou em seu suicídio em 1987. Mais de 30 anos após a sua morte, Dalida ainda é uma das maiores vendedoras de discos não só na França, mas em toda a Europa.

Fafá estava decidida. Não iria se deprimir, nem tão pouco se suicidar. Deu uma bela banana para a bocejante crítica especializada e para os pseudos amigos que se afastaram. Iria se tornar uma artista popular sim! Era o que o seu coração pedia e ela fez muito bem em atender.

Agenda: Fafá na TV (Eixo Rio-São Paulo) no mês de Maio de 1987:

23/05/1987 - Programa "Cassino do Chacrinha" - TV. Globo

Junho de 1987. Fafá de Belém entra em estúdio para gravar "Grandes Amores" seu décimo disco de carreira e o ultimo pela Som Livre.






Fafá saiu dos estúdios da Som Livre e aterrissou no palco do "Scala", onde ficou em cartaz de 02 a 12 de julho. Era a última temporada do show "Memórias". Embora a casa não tenho lotado na estreia, o show foi um grande sucesso de público e crítica. Veja abaixo vídeo com o comercial do show que foi vinculado aos principais canais de TV. Veja também as notícias e critica referente ao espetáculo. O show "Memórias" ficou marcado não só pelo romantismo, mas também, como não poderia deixar, pelo seu tom político. O país vivia tempos difíceis, o povo queria mudanças e a cidadã Maria de Fátima deu o seu recado.




Agenda: Fafá na TV (Eixo Rio-São Paulo) no mês de Setembro de 1987:

12/09/1987 - Programa "Cassino do Chacrinha" - TV. Globo

Na segunda quinzena de setembro de 1987, chegava às lojas "Grandes Amores", décimo disco de carreira de Fafá e o último pela gravadora Som Livre. A repercussão junto a crítica especializada, foi uma das piores. Textos do tipo "Fafá, assumidamente brega" ou "Fafá, bregamente romântica", dominavam as manchetes dos principais jornais. Colunistas com notas maldosas, tentavam, a todo custo desqualificar a artista, que não estava nem aí para eles, afinal, desde o lançamento e por várias semanas, "Grandes Amores" ficou na lista dos dez mais vendidos e Fafá reinava absoluta no extinto "Cassino do Chacrinha", "Meu Dilema" já era sucesso nas rádios de todo o país.

"Grandes Amores" - 1987 - Capa

"Grandes Amores" - 1987 - Contracapa 

"Grandes Amores" - Músicas

"Tudo Pode o Amor" ("All in love is fair" - Stevie Wonder - Versão: Fafá de Belém)

"Meu Dilema" (M.Sullivan/Leonardo)

"Fazendo Fumaça" (J.Michiles)

"Personagem" (Mauro Motta/Carlos Cola)

"Grandes Amores" (Fafá de Belém)

"Motivos" (Leonardo/M.Sullivan)

"Lambadas III" : "Negue" (J.Michiles), "Ti Ti Ti" (Fernando Lelis/Jacinto José), "Só vai dar Você" (Alípio Martins/Marcele), "Cheiro no Cangote" (Alípio Martins/Marcele), "Forró Fogoso" (J.Michiles).

"Coisas Mais Loucas" (M.Sullivan/P.Massadas)

"Tua Presença" (Maurício Duboc/Carlos Cola)

"Amores" (Milton Nascimento/Fernando Brant)

Ficha Técnica de "Grandes Amores"

Divulgação de lançamento "Meu Dilema" (M.Sullivan/Leonardo)

"Grandes Amores" - Encarte - Pôster

"Grandes Amores" - Encarte - Letras

É certo que "Grandes Amores" estava longe de ser um dos melhores discos da faze popular de Fafá. Era um disco de transição, o primeiro totalmente dirigido ao povão. Não havia em sua produção, pessoas com conhecimento do popular e por conta disso, os arranjos sempre pasteurizados de Eric Bulling e Lincoln Olivetti, não traduziam a emoção que Fafá queria. Em contrapartida, havia a voz e a interpretação da artista, que agradavam em cheio ao grande público. Não foi a toa que, em menos de um mês do seu lançamento, "Grandes Amores" já era disco de platina.

Imprensa

Agenda: Fafá na TV (Eixo Rio-São Paulo) no mês de Outubro de 1987:

Dias: 03, 10, 24 e 31/10/1987 - Programa "Cassino do Chacrinha" - Contou: "Meu Dilema" - TV. Globo




No dia 12/10/1987, estreou na Rede Globo de Televisão, a novela das 20:30, "Mandala". A música "Personagem" (Mauro Motta/Carlos Cola), interpretada por Fafá, entrou na trilha do folhetim. Ouça a música:

Enquanto as más línguas insistiam em desqualifica-la quanto artista, Fafá gargalhava. "Grandes Amores" terminara o mês de outubro de 1987 com um disco de platina, enquanto que Fafá reinava absoluta no programa de auditório de maior audiência na época: "Cassino do Chacrinha", na Rede Globo.




Fafá de Belém - "Meu Dilema" - "Cassino do Chacrinha" - Assista:

Em 09/11/1987, estreou, pela Rede Globo de televisão, no horário das 19:00, a novela "Sassaricando". A faixa "Lambadas III", gravada por Fafá, entrou na trilha do folhetim. A música era tema da Tancinha, personagem interpretado divinamente pela atriz Cláudia Raia. Era hilário ouvir a Tancinha gritar na feira: "Quem vai querer os meus 'melons?'", tendo ao fundo o som das "Lambadas III". Ouça a música:

Agenda: Fafá na TV (Eixo Rio-São Paulo) no mês de Dezembro de 1987:

12 e 26/12/1987 - Programa "Cassino do Chacrinha" - TV. Globo

29/12/1987 - "Especial Roberto Carlos" - TV. Globo

Em dezembro de 1987, chegava às lojas o disco "Michael Sullivan&Paulo Massadas". A faixa "Dê uma Chance ao Coração", contou com a participação de Fafá de Belém e também de: José Augusto, Joanna, Sandra de Sá, Alcione, Roupa Nova, Fagner, Patrícia Marx, Rosana, e Rosana Toledo. Ouça a música:

No dia 29/12/1987, Fafá marcou presença no especial do "Rei" Roberto Carlos, exibido na Rede Globo. A gravação ocorreu no dia 23/12/1987, e dizia-se que Fafá e Roberto fariam um duo com a música "Cama e Mesa", mas não foi o que aconteceu. Fafá cantou primeiro o seu já grande sucesso, "Meu Dilema" e depois, contou com Roberto Carlos, acompanhados pelo pianista Wanderley, a música: "Como vai Você" (Antônio Marcos/Mário Marcos). Assista:



Os últimos dias de 1987 foram bastante intensos para Fafá. Gravou o especial de Roberto Carlos e mais dois programas do "Cassino do Chacrinha". Assinou seu contrato com a Polygram e se mandou para Portugal, onde seria a principal atração no réveillon do Cassino Estoril. Aliás, segundo nota da colunista Hildegard Angel, publicada no jornal "O Globo" em 16/01/1988, seu show no cassino fez tanto sucesso, que a diretoria do mesmo a contratou para animar o "Carnaval 88" do cassino. Fafá começava a sua carreira em Portugal. Embora já tivesse feito shows por lá no começo de 1986, foi à partir de então que a cantora entrou de vez nos corações do povo português. Afinal, tudo pode o amor...

Foto: Marco Rodrigues

Agenda: Fafá na TV (Eixo Rio-São Paulo) no mês de Janeiro de 1988:

02 e 16/01/1988 - Programa "Cassino do Chacrinha" - TV. Globo

O personagem Tony Carrado (Nuno Leal Maia), da novela "Mandala", fez grande sucesso entre o público, sobretudo pelas frases engraçadas que dizia, como: "Depois da tempestade vem a ambulância", "Tu pensa que eu estava deslizando no macio? ", "Vê se tu vai decorar necrotério, que dá mais certo" e "Sou seu súbito". O bordão "minha deusa", repetido por Tony ao se referir à sua amada Jocasta (Vera Fischer). O personagem caiu no gosto popular, dai, a ideia de se fazer uma trilha sonora paralela, trilha essa que exaltava o lado românico do personagem. Fafá, que já fazia parte da trilha sonora oficial com a música "Personagem", fez parte também da trilha paralela "As preferidas de Tony Carrado" com a música "Meu Dilema".

Quando veio do Pará representar sua terra em grandes centros urbanos como Rio e São Paulo, Fafá de Belém causou uma grande revolução no panorama musical brasileiro. Até então, a música de cunho regional era só um nicho que só interessava a intelectuais, as grandes gravadoras e mídia não acreditavam que esse tipo de som poderia ser comercialmente interessante e Fafá mostrou que era.

Com o tempo, Fafá percebeu que sua imagem era mais forte que sua música e isso a incomodou. A cantora foi então, em sua trajetória, se reinventando, procurando o seu próprio ritmo.

Com "Memórias", Fafá fez uma nova revolução no panorama musical brasileiro. A música romântica, vulgarmente chamada de "brega", embora vendesse bem, não conseguia um bom espaço nas grandes gravadoras e nem tão pouco na mídia especializada. Isso acontecia pelo fato de que os grandes arranjadores, produtores, músicos e tudo o que envolvia a produção de um bom disco, estavam ligados a chamada MPB de qualidade. E Fafá vem e revoluciona tudo isso. Mostra que não existe música "brega", existe música bem trabalhada ou não.

Ao contrário do que se fazia até então, Fafá traz a música romântica com uma nova roupagem: Interpretação, arranjos e músicos de primeira linha. O recado é bem dado: "Não existe música ruim, existe música malfeita". O mercado entendeu o recado e a música de cunho popular passa a ganhar espaços nunca antes imaginados junto as gravadoras e na mídia em geral. 

Isso talvez explique o ranço que a crítica especializada passou a nutrir pela cantora. Vários outros artistas haviam se rendido ao popular, mas a "brega" era só a Fafá, afinal, ela era a revolucionária. Seria o "advento do brega" uma conspiração?


Agenda: Fafá na TV (Eixo Rio-São Paulo) no mês de Abril de 1988:

10 e 24/04/1988 - Programa "Globo de Ouro" - Cantou: "Meu Dilema" - TV. Globo

Fafá estava em alta. Já era uma das maiores vendedoras de discos no país, além de estar desenvolvendo uma carreira internacional, mais especificamente em Portugal. Uma artista com tal notoriedade, tinha em suas opiniões um grande peso.

O episódio da cocaína no aeroporto em São Paulo, era notoriamente uma armação contra a cantora. O governo Sarney estava sendo um desastre com inflação fora do controle e denúncias de corrupção. Com esse quadro, alguns reacionários temiam que nas próximas eleições presidenciais a esquerda pudesse ganhar forças.

Fafá era amiga de Lula e o seu apoio a ele teria muita força, afinal, Fafá teve grande mérito no sucesso das "Diretas Já" e na campanha de Tancredo Neves. Um apoio da cantora a um candidato de esquerda causava pavor a ala conservadora, era preciso contê-la, desacreditá-la junto à opinião pública.

Ficou tão notório que o episódio da cocaína endereçada a cantora fora uma vil armação, que nem a mídia e nem tão pouco o público, deu atenção ao fato.



Em maio de 1988, Fafá começou a produção do seu próximo disco: "Sozinha". Estava entusiasmada com esse seu novo trabalho, que marcava seu retorno a Polygram. Quanto ao rótulo de "brega" que muitos insistiam em lhe intitular, Fafá deixou o seguinte recado: "Mas o que é ser brega? Se é cantar aquilo que o povo sente no coração, então ótimo. O Roberto Carlos, que há anos canta exatamente aquilo que o povo sente, é o nosso bregão. E bregas também são: a Ângela Maria, o Frank Sinatra, a Barbra Streisand, enfim, todos aqueles que cantam com sentimento, o sentimento de todos". (Fafá de Belém)




Foto: Marco Rodrigues 

Texto Narrativo: Claudinei Sampaio

Seja um fã colaborador! Você tem uma matéria deste período e não está aqui? Faça um Scanner da matéria e envie para: contato@fafadebelemarquivo.com.br Com o assunto "Material 1987". Seu nome será citado como doador(a) do material.